21 novembro 2007

Álcool ! Maldito álcool!


A Sexta-feira é o dia mais bonito para Joaquim Bernardo Bonifácio, quando acorda pela madrugada já sente o cheiro da noite, fecha os olhos, e ainda que bem acordado, sonha com o dia em vai sair da casa dos pais com uma bela namorada (não precisa ser muito bonita) que com a pele suave das mãos lhe transmite um estranho calor que nunca sentiu. Ele sabe que é mentira, na memória ainda salpica aquele beijo através porta entreaberta da adolescência na entrada para a sala de aulas. Os lábios ainda o sentem e o calor abafa-lhe a húmida respiração.
É o despertador que o atira para sexta-feira, voltara a dormitar, toma um apressado duche e aproveita para fazer a barba debaixo da água quentinha.
Como é norma nova na empresa, as sextas são para utilizar “casual wear”, poupa no fato e já não tem que voltar a casa. Ao espreitar a sua imagem no espelho sente-se um belo pedaço, só não compreende como tem 36 anos e ainda vive com os progenitores – as gajas andam cegas.
- Mamã! logo não janto em casa! – Antes de ouvir a resposta da velhota já bateu a porta e está a entrar no seu Seat Leon.
O dia, como todas as Sextas, passou a correr e ainda entorpecido pela imagem matinal da loura (ou morena) que lhe vai caber das tais sete e meia que existem para cada macho, já está a dar umas bicadas num bom tinto empurrado com uma valente posta Arouquesa.
- Como é!? Vamos á disco sacar umas malucas?
- Ya! Se não conseguirmos nada comemos o Jorge, quem não tem pelos na cara não tem noutros lados…
- Por mim tudo bem! Mas tens que arranjar uma coisa maior que essa miniatura!
- Um brinde ao tamanho senhora que cabe em todo o lado! – Berra o Joaquim Bonifácio, levantam os copos e de um golo emborcam mais um penalti.
Como previsto a grande dama não chegou até de madrugada, Joaquim Bonifácio a partir das duas da manhã trocou os gin vómito por água sem gás e ás quatro e meia começou a distribuir os companheiros pelas suas casas de solidão (podiam viver todos juntos).
Como sabia que estava com o grão na asa, Joaquim Bonifácio, circulava com precaução, sempre encostado ao seu lado da estrada e com uma velocidade que lhe dava segurança, foi sempre assim e por isso todos os colegas lhe confiavam a vida naquelas noites de desgraça.
Estava a estacionar junto a casa, a memória levou-lhe uns lábios da adolescência numa ermida e uma pedra onde sentado ia provando desses favos de mel quando um barulho ensurdecedor de pneus a chiar o fez estremecer. Tarde demais, um BMW em despiste entrou-lhe pela porta e esmigalhou-lhe as duas pernas.
Ainda viu as luzes do carro da polícia, ouviu um soldado da paz declara-lo morto, mas sobreviveu.
Soube depois que valia mais ter morrido, o jovem que bateu no seu carro e as duas namoradas tiveram morte imediata. O JR tinha carta há meio ano e o carro potente do papá, só bebia Coca-cola e Sumol, mas não tinha mãos para governar tal bomba.
O teste de álcool feito ao falecido jovem revelou 0,0 e ao grande Bonifácio 1,23, pelo que a companhia de seguros fugiu a sete pés, arcando o, agora sem membros inferiores, bebedolas com o pagamento de todas as despesas.

Joaquim Bonifácio continua a viver com os pais, tornou-se sorumbático, já não gosta de Sextas, Sábados ou Domingos, só ouve sigur rós e nunca mais ninguém lhe viu um sorriso ou um copo de vinho na mão (estão ligados).
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