12 janeiro 2007

A democracia também pode ser muito perigosa


Acabei de ler o livro “Globália” de Jean-Christophe Rufin, uma fabula social de um tempo não muito distante, onde o homem (alguns) vive numa democracia tão perfeita que existem eleições para tudo e a toda a hora. Aos Globalianos nada falta, até um inimigo quase invisível é criada pelos oligarcas para que não lhes falte o medo. António, tu por lá não tinhas profissão secreta porque a história é proibida – para quê ter memória colectiva se os dias são perfeitos e repetidos ciclicamente de forma que todos andem felizes e na linha? JL, os políticos são completamente inúteis (como agora) porque quem governa são os grandes grupos económicos, os homens da politica são apenas fantoches bem pagos – não será já hoje o futuro? Não há como dar uma vista de olhos na entrevista do escritor ao Jornal de Noticias, ah e leiam o livro, porque vale mesmo a pena.

E Como nasceu esta fábula social?
A intenção era a de, um pouco à semelhança de George Orwell, escrever sobre que género de ameaça nos está destinada. O mundo de Orwell era o do estalinismo do pós- -guerra e foi a partir daí que ele ficcionou o futuro em 1984 [escrito em 1949]. Nós vivemos uma situação diferente, numa sociedade onde a liberdade está fixada como princípio fundamental, mas onde essa liberdade pode provocar uma deriva. Por outro lado, interessava-me ver em que medida a técnica do romance histórico, que utilizei em livros sobre o passado, podia ser aplicada no romance do futuro. Há uma intenção filosófica e política e uma intenção formal: fazer uma transposição do romance histórico para um romance sobre o futuro.

Falou na deriva por vezes associada à liberdade. A alienação pode estar para a democracia como a interdição está para outros regimes? É um dos seus paradoxos?
Sim. Em Globália todos os dias há uma festa. É um modo de desviar a atenção, a agressividade e o interesse para coisas que não têm importância. Da mesma maneira há um desviar de atenção das causas do medo. O resultado é um mundo de alienados.

O seu alvo é a democracia?
Não é uma crítica de princípio à democracia. Não sou contra a democracia, que isso fique claro. Mas quero falar da sua complexidade, que há coisas muito perigosas e é preciso a mesma vigilância em relação à democracia do que em relação a qualquer outro regime político. Ela também pode ser perigosa. Estava a escrever o livro no momento em que os americanos se preparavam para intervir no Iraque e, em nome da democracia, disseram muitas falsidades. A democracia por si só não nos defende dos excessos de poder. Também tem os seus perigos.

Como vê a escrita: uma forma inovadora de contar uma história?
Sou médico e sentia-me um passageiro clandestino na literatura. Comecei pelos ensaios porque me parecia menos comprometedor. Também os via como uma forma literária. Quando os escrevia, pensava em Tocqueville, em Maquiavel. Agora, o ensaio são só as ideias. Achava o romance mais ambíguo, rico. Quando me iniciei no romance, a grande surpresa foi o prazer que senti. Adoro contar histórias e aplico-me a encontrar uma forma de as escrever. Como vê, falo bastante, disperso-me, disparo em todos os sentidos e tenho necessidade de me disciplinar de modo a concentrar-me no essencial.

Disse que quando escrevia ensaios políticos pensava em Tocqueville e Maquiavel.E quando escreve romance, pensa em quem?
Situo-me na tradição do romance clássico francês. Dumas, Flaubert, Balzac... Hoje há uma espécie de snobismo em França em que o romancista quer inovar todos os dias, rompendo com a tradição. Eu não quero romper com a tradição. Quero contar uma história de forma simples - espero que com qualidade -, mas não procuro revolucionar a forma do romance.

Neste tempo futuro em que se situa a Globália, haverá espaço para o romance?
Há um lugar central. A defesa da leitura e em particular da ficção é qualquer coisa de essencial, porque é o único verdadeiro acesso individual à expressão. A única liberdade directa é escrever. A possibilidade de escrever, de escrever histórias, é verdadeiramente uma liberdade individual. O cinema já não é assim. Depende do meio, o controlo político, social. O livro é o último meio revolucionário ao alcance de todos.
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